terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

ROTINA

Amanheço 
para me contradizer.
Para o azul que assassina,
Para a ausencia nutrida de placenta,
Para o amor que ensanguenta,
Para a eterna despedida.
Anoiteço
Como um silêncio atravessado
Como uma sentença,
A memória me ampulheta
Como as areias do deserto no vidro, 

degluti.
Toda noite é corrompida de estrelas, 

ou a vida.
Desperto por fim.

REFLEXO

Ferida de espaço
Uma nudez caminha
negra pelo quarto
no flagelo do ar
contra o espelho
interrogado:
Há castigo?
Ou só há reflexo?
E a resposta vem pelo
Inverso.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

FELICIDADE

Antes que durmas,
Conte-me dos chilenos pobres que são
Mais felizes do que jamais seremos.
Conte-me como eram parecidos os amantes de Brandão,
Conte-me como não eram belos, mas ainda assim se amavam, 

cantavam e dançavam como flores rodopiando no ar.
Conte-me dos lugares ermos e dos cabelos emaranhados de alegria,
Conte-me como vieram de países de línguas açucaradas 

e de todo cancioneiro que tiravam de suas malas e escaletas.
Conte-me do filho brasileiro que na barriga ainda não tem paradeiro
porque a Terra será sua casa e o céu será seu teto.
Conte-me a coragem que os chilenos pobres têm 

para serem livres como jamais seremos.
Antes de dormires faz com que feche meus olhos 

e então acordaremos pobres como 
os chilenos andarilhos ricos de felicidade.

CHEGA DE SONHAR

Chega de sonhar
todo encontro é também despedida
todo beijo prenuncia a partida
Meu amor assim como chega 
me deixa na ponta dos pés.

Chega de sonhar
Queira ou não queira,
o relógio trabalha a noite inteira 
esperando a hora de você voltar
Como um verso malandro sambando 
de chapéu panamá.

Chega de sonhar
Já são quase duas
Muitas horas já perdidas
e aquela velha dívida de me fazer feliz
você ainda não pagou
Eu já de saída, nem acreditava mais na sua vinda 
e você chegou como um rei de algum deslugar
Me pegou pela cintura, colocou aquela música 
me puxou pra dancar, mas de repente 
a festa acaba e eu de coração na mão tenho que dizer

Chega de sonhar,
Você diz que já sabia
mas vai relevar
só por hoje e me diz
-Chega pra sonhar.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Quando da luz deslizava
Seu perfil em meu perfil de fumaça
Então meu desejo saía do papel.
Minhas mãos encarvoadas mentiam
E disfarçavam o medo de quem
Feriu de beijo ou de negror
Num gesto ardil que descortinava
As pupilas em brasa.
Pouco a pouco o vento desfaz
O trilho de fogo pelo caminho.
Mas salva a fagulha, continua vivo
Pelas candeias, nos desatinos
De Eros empinado pelo meio.
Só de fósforo incedeio o nanquim
de versos negros de desespero.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

MACUMBA

Eu vô pra macumba,
Eu vô pru candomblé!
Quarqué uma que truxé
Esse nego pru que dé e vié!
Vô falá cum orixá
Cum Iemanjá que tamém é muié,
Prá trazê esse nego
Bem rente nus meus pé!
Vô tumá banho de chêro,
De arfazema, de cuité,
Vô fazê os beiço preto
de bebê tanto mé!
Vô pulá sete maré,
Vô rezá uma reza forte,
A mais forte que tivé,
Eu vô fazê o que eu pudé
Pra tê esse nego nus meus pé.
E aí quando ele vié,
Cheio de dengo e rapapé,
Aí eu vô dizê:
Pode dá nu pé seu nego,
Agora sô eu que num mais qué!

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

PESCADOR

Ondula o diafragma
sobre a negra vaga
das solidões oceânicas.
É profundo o escuro
preso na retina do anonimato.
Tantos atos afogados
No repuxo das pulsões
Sem farol nem barco.
Ô pesca dor, ô pesca dor!
Já não há porto!
Ô pesca dor, ô pesca dor!
É o mar, é Omar!
É o corpo, é o corpo!
É o mar, é Omar!
Está morto! Está morto!
À deriva no conforto
da negra vaga das solidões
oceânicas.