quinta-feira, 8 de novembro de 2012



Contrapensamento...
Anticerebral...
Prossentimental...
Deveras, compensa,
Poesia residual?
Quem me dera poder
eviscerar toda minha poesia e dela arrancar você.
Arranho a pele, a garganta, os seios.
Arranco cabelos, rasgo vestidos,
quadros belos e medos.
Expurgo nomes, homens e altares.
Já não possuo você.
Há lugares e não há você.
Há amanheceres e não há você.
E amanhã não haverá...

SEGUNDOS PASSOS

Dei de cara na esquina do mundo.
Entrevi pela fresta do escuro um resto de luz,
projéteis lunares.
arte bruta, tato cego, desejos mudos, ecos surdos.
Pontes seculares entre homens e deuses atravessada
Em segundos passos.
Onde estão meus paços?
Onde andarão? Ocuparão que lugar?
Agora são rastros dos sapatos de outrem,
buracos negros e requiéns de estrelas.

HABITAÇÃO

Muitos me habitam
Músicas, dores, flautas,
acordeões, cheiros, canções,
Me habita você e suas cores numa dança colorida
Bem diante das pupilas diamante em meio a escuridão
Muitos me vagam, percorrem, iluminam, atalham contra a solidão.
Me abrem o portão ou me invadem sem concessão.
Me perscrutam, indagam, olham e se passam para o lado de dentro.
Me façam eterna num minuto antes do término da brusca aparição
De meus olhos frente a imensidão.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

SEGUIRÁ

Corro e corro, não há mais linha de chegada
Corro e caio em cactos e espinhos,
Calco os pes em cacos de vidro.
Em carma e cama se desfaz a alma
em lama se esvai a calma
desfaço a fama e vou a lona,
Dona de algo que não pertence a ninguém
do cacófato gago
mal pronunciado
agora é fardo o ponto de partida.
Vou me embora pra passar a vida
ainda que assim deveras cindida,
Seguirá.

MAIO

Me acordem quando maio tiver passado.
Quando estiver esquecido no calendário.
Mas que bobagem...
Tempo é coisa de relógio.
Um engano astrológico pariu este mes ao contrário.
Sera que existe um desmaio?
Passe ao largo a passos largos.
Me acordem quando maio tiver passado.
Assim ou assado
no silêncio e no vácuo.
Louco e perdulário,
sem soldo e sem saldo
sem ampulheta nem relicário.
Passa mês de maio!
Fiz o que você me pediu
E me desfiz
dei o nó na garganta
fingi que acreditei
Em todo panta rei
que existiu pra nós
que desatei
inventei milhões de abismos pra ninguém
e me abismei
Cismei de brincar de amor, me entreguei
me joguei na solidão
Brinquei com desvarios
achei decerto haveria um destino para os loucos
phebo foi o culpado
mas eu cavei a vala pouco a pouco.
E agora o destino era
um velho louco gritando
rouco:
eu não minto, só faço pouco.